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14/12/2014

A dor de perder um filho: o aborto espontâneo


A pior e mais intensa dor que senti. Não física, porque não senti muita coisa. Foi uma dor na alma. Descobri do aborto da pior maneira possível: na primeira ultrassom, a técnica viu meu útero e disse que estava tudo bem, viu o bebê e disse que estava tudo bem, fez as medidas, deu o due date e só depois viu que o coração não estava batendo.Um choque!
imagem daqui

A médica me deu 3 opções: esperar para ver se o corpo eliminaria, tomar um remédio ou fazer a curetagem. Psicologicamente falando, eu não teria condições de sangrar, de ver a perda do bebê. A curetagem seria feita no outro dia. Meu marido foi no ambulatório e pediu ao professor para ir para casa. Entramos no carro e lá choramos abraçados. A curetagem na UAB é feita na maternidade. Foi muito ruim sair da maternidade de barriga vazia e sem bebê no braço. Isso tudo foi as vesperas do Natal e achamos por bem não compartilhar com ninguém aquela dor (só minha mãe e irmãs ficaram sabendo). O pior Natal da minha vida! Os próximos 15 dias foram os piores. Acho que nunca chorei tanto. Quando saia de casa só via mulher grávida e bebês, aí eu chorava mais.

Racionalmente falando, eu pensava com minha cabeça de cientista: 20% das gravidezes descobertas acabam assim ou ainda, provavelmente nosso bebê tinha alguma questão genética incompatível com a vida. Mas eu só pensava em quão ruim eu deveria ser para ser “sorteada” para ser esses 20%. Senti inveja das pessoas que têm filhos, especialmente daquelas que engravidam sem querer, parei de seguir canais do youtube/blogs com esse tema. Senti tanta raiva.

Era inverno e tivemos 2 tempestades de neve, então trabalhei muito de casa. Ficava deitada e chorando, mas levantava 4 vezes para andar com Luffy (não sei o que seria de mim sem ele). Queria dormir e acordar 6 meses depois. Tudo reação normal do luto, eu sei, eu sou psicóloga, mas foi difícil! “Compramos uma estrela”* para noss@ pequen@ e agora, depois da dor aguda da perda (exatamente 1 ano  depois e eu escrevendo esse post ainda choro), sei que por 4 semanas ele/a foi muito amad@ e nos encontraremos no futuro.

*Eu sei que não dá para comprar uma estrela de verdade, mas para mim foi importante fazer algo para lidar com o luto.

Tem esse texto da Nívea que ela escreveu lindamente sobre o tema. E esse abaixo em inglês que encontrei em algum lugar e me emocionou muito.

"Having a baby is like opening a door in a house you've lived in for ages, and entering a wonderful new room that you never knew existed. At first strange and beautiful, you go there so often that after a short time you can't remember what it was like before that room was a part of your house. You could never give it up again. You live there.
Finding out you're pregnant is like discovering the door for the first time. You don't know what's on the other side, but you can't wait to open it, because you know it's going to be great - although almost never what you expected.
Losing a baby during pregnancy is like someone coming along and bolting that door shut for ever.
It doesn't change the fact that the door is there. It doesn't make your curiosity about what was on the other side go away. You may even have caught a glimpse - just fleeting - before the door was locked forever. Maybe you never saw. But that room is part of your house now. You might drag furniture across the door to hide it, or you might spend weeks and months trying to kick through the lock. Maybe you wonder if you could have stopped them from locking it.
You might learn to walk past the door every day, without dwelling on it. Or you might stop there ever day, and press your ear to the door and let yourself imagine. But of course you'll be upset if people expect you to believe that the door doesn't exist, or the room doesn't matter. It's just not true, you know it's there.
There might be other doors, other rooms - there might not. But whatever your house looks like, it's okay to still sit by that door if you need to. It's okay if it's been a while. It's not strange.
My thoughts are with all of you who know what I'm talking about. 
Meg H (three locked doors)."

PS: Hoje oficialmente entramos no terceiro trimestre da nossa segunda gravidez. Está tudo bem (mas pra frente eu conto mais), só as dores normais mesmo, mas achei que esse tema não é muito falado e na época, foi tão importante encontrar textos e vídeos para eu me reerguer outra vez. Também acho que se o blog é um registro da minha jornada em terras gringas, esse momento, foi sem dúvida muito marcante e digno de post.

9 comentários:

  1. Sinto muito pelo que aconteceu no ano passado e muita alegria pela sua alegria de agora, que presente lindo Lorna, muita mas muita saúde para vocês, esse blog ainda vai ficar melhor agora. Bjs

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    1. Que fofo, seu comentário kel. Muito obrigada.

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  2. Meu coração gelou quando vi esse post, mas entendi logo que vc estava falando de outra gravidez e entendi também porque vcs estavam mantendo essa de agora só para os próximos. Eu não consigo nem começar a imaginar essa dor de perder alguém tão esperado e imagino que já amado. Sinto muito. Espero que o novo bebê possa trazer muita alegria para o seu lar e sei que vai.
    Beijos =*

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    1. Pois então, foi bem complicado, agora estou começando a relaxar. E sim, antes mesmo do positivo, o nosso bebezinho já era amado, mas enfim, a Alice está chegando para encher esse esse mundo de coisas boas.

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  3. Lorna, eu nem preciso dizer que sei exatamente do que você está falando, né? Eu compartilho com você dessa pior dor. Eu também penso nos meus bebês que eu nunca vou pegar no colo e mesmo com esse na barriga eu sempre me pego pensando em como seria a vida se não fosse pelo aborto. Também me pergunto se um dia vou deixar de pensar nisso mas só o tempo para dizer, né? Um beijo grande para você com os maiores desejos de que sua Alice venha cheia de saúde, inundando a vida de vocês de amor e felicidade. x

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    1. Obrigada, Nivea. Desejo o mesmo para vocês e que as próximas 7 semanas passem voando!

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  4. Olá, Lorna! Já faz um bom tempo que acompanho seu blog! Sou nordestina tbm, mas de Fortaleza, sou recém-casada e meu marido, também médico, quer fazer residência nos EUA. Pesquisando na internet sobre o assunto acabei parando aqui e fiquei lendo suas postagens! É engraçado como as vezes algo tão despretensioso como um blog pode tocar vidas! Eu comento direto sobre suas postagens com meu marido, ele já acha que somos amigas! hehehe Quando vi essa sua última postagem fiquei muito tocada e quis muito comentar pra te desejar muita saúde, especialmente nessa etapa da sua vida, e que venha com esta mesma saúde seu bebezinho! Felicidades!

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    1. Que pena que você não assinou a mensagem. Anyways, obrigada! Eu sei bem como é essa relação com pessoas que escrevem blogs, a gente fica meio íntimo mesmo, é meio estranho :)

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  5. Eu nao consigo nem imaginar a dor de perder um filho, fiquei com os olhos cheios de agua lendo seu post; mas to feliz com a noticia de que o tao esperado baby ta a caminho e que Deus possa abencoar voces.
    Beijinhos

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